Prestes a completar 90 anos, Hermann Zapf continua trabalhando
com o que
mais gosta: tipografia. Este calígrafo, tipógrafo
e designer de fontes alemão criou
Palatino,
Optima,
Zapfino
e outras fontes
muito conhecidas.
O quem mais impressiona em seu trabalho é
paixão de Zapf pela
caligrafia tradicional: sua fonte sem
serifa,
Optima, não foi feita com
réguas e esquadros, mas com pena e
pincel. Apesar disso, ele não é
mais um
designer retrógrado—muito pelo
contrário, foi um pioneiro da
composição e da tipografia digitais. Este post
é
formado por minhas notas de leitura de
História
de alfabetos: a autobiografia e a tipografia de Hermann Zapf.
“Vivemos em uma sociedade
totalmente mudada, em que o
indivíduo aspira a criar sua própria
expressão particular [independente da
imitação de períodos
históricos].” Hermann Zapf
Zapf nasceu na Alemanha em 1918, ano
em que a
República
de Weimar
foi declarada, a gripe espanhola atingia seu age e a fome assolava o
país. O
sonho do garotinho desnutrido era tornar-se engenheiro
elétrico (desde a
infância ele brincava com baterias e lâmpadas), mas
as condições políticas da
Alemanha da década de 1930 não eram
favoráveis ao filho de um ex-líder
sindical. Ele conseguiu, após muitas entrevistas, uma vaga
de aprendiz numa gráfica.

Nos anos seguintes, Zapf aprendeu
sozinho caligrafia e
lettering,
e mudou-se para Frankfurt, onde, trabalhando numa gráfica,
criou suas primeiras
fontes, para notação musical. Na cidade, ele
entrou em contanto com as
fundições Stempel e Linotype, e projetou a fonte
gótica
Gilgengart, pela
qual recebeu uma ninharia.
Zapf foi convocado pelas
forças armadas em 1939, mas teve
problemas cardíacos e foi mandado para um
escritório, onde escreveu relatórios
de campo e certificados esportivos. Quando a guerra começou,
em setembro
daquele ano, Zapf foi dispensado, mas foi convocado novamente em 1942,
para a
artilharia. Ele era muito desajeitado com armas, e acabou sendo mandado
para um
escritório de cartografia em Bordeaux. No final da guerra,
Zapf foi feito prisioneiro
num hospital francês, mas foi bem tratado e logo libertado.

Em 1946, Hermann Zapf
começou a dar aulas de
lettering,
em condições muito precárias. Seus
alunos, porém, estavam muito entusiasmados
pela chance de um recomeço profissional. Em 1947, ele
tornou-se diretor de
artes gráficas da Stempel, onde publicou seu primeiro livro,
uma monografia
sobre o líder do
Arts
& Crafts inglês,
Willliam
Morris.
Entretanto, o motivo real de sua
contratação foi o desenho
da nova fonte
Novalis Roman, que ele enviara
à fundição. A
fabricação da
Novalis, porém, foi suspensa quando Zapf mostrou o projeto
de outro alfabeto,
Palatino,
que foi produzido imediatamente. A fonte teve sua estréia no
ano seguinte, no
segundo livro de Zapf,
Feder und Stichel (
Pena
e buril), uma
coleção de alfabetos e exemplos de caligrafia do
próprio Zapf, que teve grande
aceitação na Europa e nos EUA.

Em 1954, ele desenhou o tipo
árabe
Alahram Arabic,
depois conhecido como
Palatino Arabic. Em 1958,
outra fonte de sucesso
foi lançada: a
Optima, uma sem serifa de
proporções clássicas e
variações
de traço caligráficas.
Nos anos 1960, Zapf mudou-se para os
EUA, onde ministrou
disciplinas de caligrafia e design de livros a convite da
Carnegie
Tech.
Nessa década, ele fez várias fontes para a
Hallmark
Cards, e
participou de um filme didático sobre caligrafia chamado
The
Art of Hermann
Zapf.
Zapf presenciou entusiasmado o
início da composição digital,
mas suas idéias para ela não foram levadas a
sério na Alemanha. Em 1964, ele
falou aos estudantes de Harvard sobre layout e tipografia no
computador,
prevendo eventos que só se tornariam realidade 20 anos
depois, com o
Macintosh.
Já em 1965 Zapf
começou a experimentar com
programação,
buscando formas de se obter composições
sofisticadas de forma automática. Nos
anos 70, Hermann Zapf criou uma série de fontes digitais
para a empresa do Dr.
Rudolf Hell, criador do computador-diagramador pioneiro Digiset. Ele
também
fundou, com Aaron Burns e
Herb
Lubalin, a DPI, companhia que criava softwares de
formatação textual
simplificada para escritórios.
Nos anos 1980, Zapf desenvolveu,
junto com a empresa de
informática URW, o
hz-Program,
software de composição que alcançava a
justificação perfeita, com poucos
hífens
e sem espaços grandes entre as palavras. A Adobe adquiriu a
patente do
hz-Program nos anos 1990, e usou alguns de seus conceitos no
InDesign.
Hermann Zapf pronunciou-se
também contra a pirataria, não
apenas na distribuição indevida de fontes, mas
também no plágio de trabalhos
inteiros, como no caso da
Monotype
Book Antiqua, cópia da
Palatino.
Por causa disso, ele renunciou
ao posto de membro fundador da
ATypI
(Association
Typographique Internationale).

Em 1947, Zapf criara a fonte
Virtuosa,
baseada num
esboço caligráfico de 1944. Fontes
caligráficas eram comprometidas, porém, pela
falta de flexibilidade e pela limitação de
espaço na composição em tipos de
metal. Em 1998, porém, com as novas tecnologias digitais, 4
alfabetos intercambiáveis
da fonte
Zapfino, baseada no mesmo
esboço que a
Virtuosa, foram
lançados. Alguns anos depois, o formato
OpenType
possibilitou ainda
mais variações no uso da
Zapfino.

Nos anos 2000, Zapf e Akira Kobyashi,
diretor de criação da
Linotype, criaram novas versões de
Optima,
Palatino e outras de
suas fontes, e ainda a
Palatino Sans.
O site de Hermann Zapf, em
alemão, é
hermannzapf.de.
***
Nas próximas
semanas teremos mais resumos de livros sobre
tipografia e design, enquanto o trabalho propriamente dito
não começa.